Duranta Erecta Aurea

Lembro como se fosse ontem, de quando ganhei aquela muda de Pingo d’Ouro, presente do meu primo Isac. A plantinha estava lá, bela e verdejante, soberana em seu vasinho de barro. Meu erro primordial foi tê-la plantado no solo da minha própria casa, onde se alastrou rapidamente, espalhando suas folhas pequenas por todo o patio, que eu tinha de varrer dia sim, dia não.

Em questão de um ano a planta já competia em volume com meus limoeiros. Indaguei Isac, o qual disse que eu deveria comprar um aparato especial para poda-las, e que poderia até fazer esculturas nela, já que tenho uma veia artística. Que nada, mal ligava a maquina e as folhas se dispersavam, e lá ia eu de novo com a vassoura.

No verão seguinte ela mostrou suas garras, suas raízes cresceram ao redor da tubulação de água, posteriormente rachando-lhe, causando uma enorme transtorno a mim e minha família. Isac disse que eu plantei muito perto dos canos, tudo culpa minha… Depois de pagar uma fortuna para um estranho pelo conserto hidráulico, peguei um facão e me vinguei da planta. Poucas coisas eram mais terapêuticas do que mutilá-la com meus violentos golpes.

Um ano depois a situação piorou, mesmo abaixo de faconaços frequentes a planta triplicou de tamanho e já ocupavam todo o meu quintal. Tentei aniquilá-la com um herbicida bem concentrado, o máximo que fez foi queimar as folhas, que em poucos dias renasceram mais verdes do que nunca. Tentei então sal, óleo, QBoa, tudo que me recomendavam, mas nada adiantou. Qualquer tentativa de remoção física também era inútil, primeiro porque crescia mais forte e se propagava, como que por afronta; segundo que suas raízes já abraçavam os canos do esgoto, ameaçando esmagá-los caso alguém lhe fizesse algum mal.
Por outro lado, meus cães se divertiam, corriam por entre os galhos dela e caçavam pequenos animais que ali viviam, as vezes até se cortavam nos espinhos, mas nem davam bola. Minha esposa estava já com os nervos a flor da pele, queria seu quintal de volta para repousar nas tardes quentes, me incitava a tocar gasolina depois fogo naquela praga, o que eu era contra, pois o incêndio poderia se alastrar queimando a casa dos vizinhos ou até mesmo a nossa, e pela disposição da planta, isso seria bem provável. Muitas brigas se seguiram, ela dizia que eu estava do lado do Pingo d’Ouro, que ou saia ele, ou saia ela. Como se eu tivesse escolha…

Certo dia, entre os produtos de limpeza, avistei uma garrafa de refrigerante, sem rótulo, e contendo um líquido amarelado, abri e logo veio aquele cheiro forte de combustível. Joguei fora e não disse nada. Então pesquisei casas para alugar, encontrei uma interessante na cidade vizinha, onde ficava a fabrica onde eu trabalhava, com pátio amplo e o aluguel menor do que eu pagava. Dei a notícia, minha mulher e filho foram contra, mas era a única forma de se livrar daquela maldição que nos assolava. Quando o cano do esgoto finalmente rachou minha esposa consentiu em nos mudarmos.
No dia anterior à mudança descarreguei toda a minha raiva acumulada naqueles três anos, peguei o facão e deixei que o peso do meu braço caísse sobre aqueles ramos espinhentos. Muito me cortei, muito pouco me importei, os cães fugiram, nunca os vi tão assustados. Entre os meus golpes, quase cego pelas folhas amarelo queimado e pela raiva, eis que avisto tons de rosa, cesso minha ira e vejo uma flor, na quina de um galho, lembrava uma flor de ipê, mas no seu centro havia um pequeno fruto, algo como uma amora ainda por amadurecer. Cortei-lhe com um golpe decidido, sem me deixar apiedar por aquele pedido de clemência. Então, já cansado, fui para o chuveiro. Durante a noite sonhei que comia aquele fruto, mas nos sonhos não sentimos gosto senão da própria saliva.

Nosso senhorio ficou fulo ao ver a planta enorme que ali deixávamos (isso que ele não viu o esgoto vazando) e disse que iria nos processar. Qual juiz acreditaria na historia duma planta mutante que tomou conta de um terreno? Na casa nova todos estavam muito felizes, menos os cachorros, que pareciam sentir falta daqueles tuneis entre os arbustos, azar o deles.

Como sempre gostei de jardinagem, na nova casa plantei uma azaleia, sementes que comprei no super mercado para marcar essa nova vida. Uma semana depois um galho fibroso ergue-se do solo, sim, era a duranta. Não me pergunte como, a única coisa próxima de uma explicação plausível que tenho é a hipótese de ter entrado material genético da planta sob minhas unhas, enquanto esquartejava ela e suas crias, e teve contato com o solo quando eu plantei a flor. Arranquei a pequena raiz e botei fogo. Na outra semana já germinava a pobre azaleia, mas junto com ela cresceram dois ramos da inimiga, que arranquei com preocupação. Coloquei então o que já havia da desejada flor num vaso de barro e cavei buracos na terra a procura de ramos da danada. Minha esposa me espiava de soslaio, eu não havia contado para não preocupa-lá, por isso não entedia o que eu fazia ali naquele momento. Nada encontrei.
Entre meus buracos mal tapados mostravam-se algumas raízes, que eu arrancava com as mãos nuas e já calejadas, muitas vezes noite a dentro, pois havia descoberto seu novo plano: Começar espalhando-se pelo subsolo e depois tomar a superfície de assalto!

Certo dia ao chegar em casa a surpresa, minha mulher havia me abandonado, fora embora com meu filho para a casa de sua mãe em Santa Catarina. Foi então que enlouqueci, me entreguei ao álcool, faltava ao trabalho e ignorava a planta que crescia sob meus próprios pés, prestes a tomar conta deste novo refúgio.
Quando chegou até mim a inevitável aviso demissional eu me tranquei em casa e bebi minha rescisão, apenas eu e a azaleia, que logo morreu, pois eu me negava a abrir sequer as cortinas.

Quando enfim me senti um pouco melhor e criei coragem para por a cara para fora, descobri, sem surpresa, que minha casa estava envolta pela planta, nem a luz solar conseguia atravessar aquela espessa folhagem há quase um metro da minha cabeça. Mas dessa vez ela parecia mais atrativa, seu interior parecia o horto onde brincava durante a infância, então sem nada a perder saí a explorar aqueles caminhos labirínticos, por horas, dias. Quando a fome me afligia suas flores gentilmente me ofereciam um de seus frutos, que descobri terem gosto de maçã verde; quando era a sede que sentia, logo me deparava com agua jorrando de um cano quebrado. E assim vivi, só eu e posteriormente os meus sábios e fiéis cães, que reencontrei. Por fim me acostumei com os padrões daqueles caminhos e parei de andar em círculos, me dirigi ao coração desta floresta de planta única, e então encontrei a mim mesmo, esculpido em folhas e ramagens, soberano, regendo aquelas raízes que se espalhariam por toda a terra.

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