O Fofoqueiro

Já diziam os mais velhos, nada é pior que um homem fofoqueiro. Seu Nelson era um desses, seus conterrâneos de Iataí, cidadezinha à beira do rio Jacuí diziam que em seu velório seria preciso dois carros funerários, um para o corpo e outro para a língua.

Nelson Leão sabia de todos os babados e rolos, menos os de sua esposa que fazia a alegria dos boys nas noites de quinta, dia sagrado da canastra do marido. Seus companheiros de carteado fingiam não saber, mas certo dia enquanto jogavam e bebiam o velho linguarudo, empolgado com a mão inicial muito boa e com duas latas e meia de polar, dasandou a contar um causo sobre o Tavares, rolos envolvendo cheques sem fundos e travestis. Só uma coisa Nelson não sabia, que aquele carrancudo fazendeiro chamado Goumercindo, da dupla adversária, havia recém descoberto, num estressante almoço em família, que sua filha havia embarrigado do tal Tavares. Descarregou então todos os desaforos que conhecia sobre a menina e saiu em sua F1000 para esfriar a cabeça, não tinha pra onde ir se não para o bar do Bento, passou a tarde em negação, fumando e esperando pela hora do carteado para esfriar a cabeça.

Goumercindo ergueu-se da mesa e no primeiro momento chamou Nelson das mesmas coisas que chamara sua filha mais cedo, depois procurou o revolver, que já havia vendido há mais de dez meses “para não se encomodar”. Apelou para as verdades sobre a senhora Leão, os outros jogadores ficaram estarrecidos com a situação súbita, até tentaram falar um deixa disso para aquele homem de meia idade todo avermelhado, mas suas vozes eram abafadas pelos “Corno” gritados por Goumercindo. Os outros tres clientes do bar, que bebiam escorados no balcão tentavam esconder risadinhas, não que alguém estivesse reparando neles. Nelson terminou sua cerveja de forma estóica e quando o fazendeiro demonstrou o primeiro sinal de cansaço o linguarudo apenas disse: “Com todo o respeito: senhor ta brabo porque suas terras vão a leilão, pensa que alguém aqui não sabe?” E então largou as cartas sobre a mesa se dando conta de que naquele dia não iria mais ter jogo. Tonho e Pedro seguraram aquele homem baixinho e truncado, que parecia um touro preso numa cerca, Nelson tentou sair com ar de superioridade, mas Goumercindo disvimcilhou o braço dos dois por um momento e arrancou um naco da camisa e seu desafeto, que cambaleou com a força do puxão em direção à saída.

O liguarudo apertou o passo, dali a duas esquinas analisou a camisa, não tinha remendo que a salvasse, o que sua mulher pensaria? Olhou então o relogio, recém nove e meia, poderia ir à Bar do Bira, mas não vestido daquele jeito, iria antes em casa trocar de roupa, de preferência na surdina. Ele tinha certeza que aquele velho havia dito tais coisas da boca pra fora, não porque confiava na mulher, mas porque achava que àquela altura do campeonato ninguém mais iria querer. Eu até poderia contar o que ele viu quando chegou em casa, mas ao contrário de Nelson eu não sou fofoqueiro.

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