O Miserável

Hugo caminhava apressadamente para o trabalho, mesmo estando alguns minutos adiantado; trabalhava chefiando uma equipe de programadores em um órgão publico. A pressa não evitou que notasse um mendigo em seu caminho, sentado com as pernas cruzadas, escorado na parede fria de um prédio antigo. Não pedia esmolas e nem tinha qualquer recipiente para recebe-las, mesmo assim Hugo pegou uma nota de dez de sua carteira, como também algumas moedas “um alaminuta”, pensou. Atirou-as com cuidado entre as pernas do indigente que as recolheu estoicamente, acompanhado de um pigarro, e colocou num bolso dos trapos que naquele momento se revelaram uma jaqueta.
O filantropo parou a espera de um agradecimento, que não veio; lutou contra a irritação, foi superior e perguntou:
– O senhor precisa de mais alguma coisa?
– Não, brigado, tchau. – Cuspiu cada uma das três palavras com uma secura crescente.
O programador bugou, pensava em algo mais para dizer mas não havia, então percebeu que chamava atenção dos transeuntes, eles lhe olhavam com curiosidade, quem seria aquele homem de terno e pastinha conversando com um sacomano? Poderiam até pensar que ele estaria ali comprando drogas. E se ele realmente as vendesse? Faria todo o sentido, pois não pedia dinheiro e não ficou feliz em receber aqueles quase quinze reais! Por via das duvidas retomou o rumo e a pressa, dobrando numa esquina anterior ao trajeto costumeiro para despistar os curiosos e talvez até mesmo a polícia.
O arrependimento martelava sua consciência no mesmo ritmo afobado de seu coração generoso; tentara ajudar alguém, poderia até mesmo ter dado valiosos conselhos já que também fora pobre. De vez em quando ministrava palestras motivacionais, então poderia encorajar o coitado a sair daquela situação, se ele se deixasse motivar; logo lembrou que ficou sem nenhum trocado para o trem e teria que sacar dinheiro no caixa do terminal e pagar tarifa do saque. Reduziu o passo ao pensar no prejuízo e notou uma vitrine refletir seu semblante, parecia mais bonito do que se lembrava “é a caridade”, pensou o Dorian Gray às avessas, e rejubilou-se.

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