O Anticristo

Eram os últimos dias de noventa e oito, Mike assistia TV a maior parte do dia, assim como a maior parte de sua geração. No seu caso a dismetria óssea de suas pernas minavam todo seu gosto pelo futebol, que os meninos da vizinhança jogavam quando não passavam desenhos.

Seus pais haviam saído para a festa de fim de ano da empresa, naquela noite ele aproveitou para assistir a programação das dez, a qual geralmente eles não o deixavam assistir. Zapeando passou pelo anúncio de um tênis americano protagonizando jogadores de basquete; não deixou-se abater tanto pois trocou de canal em seguida, chegando a uma emissora de médio porte onde um vidente com capa e bola de cristal fazia profecias enquanto uma repórter de meia idade simulava crença e surpresa. Depois de cantada a morte do Papa, do Oscar Niemeyer e de alguns jogadores de futebol, Mike já apontava o controle para a TV prestes a procurar por um filme quando então foi anunciado o clímax da matéria: noventa e nove seria o ano do terceiro anticristo! O menino sentiu algum medo, mas a curiosidade era maior, vieram os comerciais, o deixando ainda mais curioso. Seria já o fim do mundo? Seria isso algo ruim ou algo bom?
O adivinho retornou falando sobre as incríveis habilidades intelectuais e de liderança do futuro rei profano, o menino sentiu uma certa admiração, até mesmo empatia pela figura: um gênio solitário e incompreendido, de mente e personalidade inquieta. Então o vidente anuncia:

– O terceiro anticristo caminhará como que pisando sobre os escombros da sociedade judaico-cristã ocindental, por ele derrubada, por isso será coxo!

Houve uma pausa de pura descrença, depois Mike desesperou-se, não deu mais ouvidos a TV, olhou pela janela em busca da mãe que não retornava, o estômago embrulhava e ele tentava esconder as lágrimas cada vez mais caudalosas. Sentiu-se abandonado, pensou em ligar para onde estariam os pais, mas não poderia contar o real motivo de sua preocupação porque eles não levariam a serio, talvez até rissem, além de zangaram-se por terem seu lazer interrompido e além disso seria posto de castigo sem poder ver televisão por dias.

Gaguejou uma Ave Maria em sua mente, tentou dormir mas obviamente não conseguiu, se revirava sob a cobertas, seria ele o anticristo? Sempre soube que havia algo de errado consigo, alguma coisa muito além do comprimento de suas pernas, mas nunca soube exatamente o que. Já havia desejado o fim do mundo, seus professores sempre elogiaram sua inteligência e no fundo ele sabia que já não era uma pessoa boa pois magoara colegas apenas por diversão, se empanturrava de sobremesa esncondido e fazia coisas ainda piores no banho. Lembrou que o anticristo governaria o mundo inteiro, por um instante isso não parecia tão ruim, mas logo percebeu o egoísmo de seu pensamento e teve efêmera certeza de seu destino fatídico. Uma parte de si cada vez mais desperta considerava ridículo acridtar naquilo, e então ele sentia vergonha de si mesmo.

A cada pensamento negativo Mike enrolava-se mais naquele enorme cobertor felpudo que absorvia rapidamente as lágrimas de seu choro já soluçante, enquanto ele encaracolava-se em posição fetal, cada vez mais triste, cada vez mais confortável, cada vez mais cansado e sonolento.

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