A Pantera

Fagner era considerado esquisito não só por ser fanho, mas também por sua imaginação fértil. Certa vez um cigano lhe vendeu um livro pelo preço de uma ovelha, se tratava de um manual sobre criaturas fantásticas, o matuto não entendia a maioria das palavras ali escritas em castelhano, entretanto não se importou em gastar todo o dinheiro que guardava (e se tivesse mais, teria dado mais) pois aquele livro provava as coisas que só ele via. Mesmo assim não mostrou a nenhum dos seus vizinhos céticos que o importunavam.

Quando ia a cidade vender leite em sua carroça, perguntava ao vigário o significado de algumas das palavras que não entendia; o religioso também não sabia o espanhol, mas usava de lógica e etimologia para dar significado às palavras, quase sempre acertando. Fagner sabia que uma das criaturas retratadas no livro rondavam sua casa furtivamente a noite, já até havia matado uma vaca sua, devorando apenas as vísceras. A gota d’água foi a morte de seu fiel cão, Piloto, que encontrou com o pescoço destroçado. Reconheceu pela marca das patas que era um felino grande e o livro lhe revelou ser a pantera. Trocou a penúltima vaca que seu pai deixara por uma antiga espingarda calibre vinte e seis, sua mãe adoeceu com a decisão, mas ele sabia que se não fizesse algo contra a fera esquisita logo lhes sobraria nada.

Saiu à caça na mesma noite que conseguiu a arma. O bestiário, que levava consigo na mochila dizia que a fera fazia casa nas montanhas; o mais parecido com isso que havia por ali eram os montes de escória deixados por uma mineiradora que explorou a região há anos extraindo rochas ornamentais. Era uma noite sem lua e nem estrelas, saiu furtivamente para evitar reprovação de família e vizinhos, porém por onde passava os cães latiam denunciando sua presença, mesmo assim tentou manter-se oculto aos olhos que espiavam pelas janelas. Terminou de cruzar as pinguelas sobre os mucufos e já estava fora da vila, os latidos davam lugar ao coaxar frenético dos sapos. Através de cercas de arame farpado, cruzou uma pastagem escura mas seu caminho era constantemente iluminado por relâmpagos vindos da direção oposta. Mal avistou a pedreira, caiu uma pancada de chuva fria contrastando com aquela noite de novembro. Colocou suas cinco munições sob a camisa para evitar que a pólvora molhasse e procurou abrigo entre as pedras. A visibilidade era pouca, mas estava convencido de que reconheceria a criatura pela mancha prateada que possuía no lombo em forma de lua crescente. Se protegeu da chuva numa fresta estreita e baixa entre dois pedregulhos, entretanto a água escoava por ali, molhando e tornando pesadas suas botas de couro cru. Checou seus pertences, um pão de anteontem que trouxera já estava enxarcado, teve que joga-lo fora, pelo menos o livro não havia sofrido nenhum dano pois lhe fizera uma capa impermeável com sacos de milho.

Após retomar o fôlego, sentiu um cheiro adocicado que lembrava uma flor de laranjeira; encobriu-se com um pano para no caso de serem abelhas e movido pela curiosidade foi, entre pedras rachadas, em direção àquele odor, evitando áreas abertas para não molhar-se ainda mais. O aroma se intensificava, ele já guiava-se só pelo olfato, conseguia até sentir seu gosto, era algo como uma fruta quase rota. Fagner avistou proximo ao ponto mais alto daquele lugar a entrada de uma gruta, esqueceu logo do aroma exótico e de sua presa, escalou as pedras em direção a promessa de abrigo seco e seguro. Subiu sobre diversas rochas ingrimes que formavam uma escadaria o mais irregular possível, a abertura levava à uma caverna escura, mesmo assim o caçador não sentia medo nem cansaço porque seus nervos tinham como única função naquele momento reclamar do frio a cada gota que ultrapassava seus trapos ensopados.

Adentrou a gruta e não enxergava um palmo adentro, nem mesmo ao relampejar; o cheiro forte e seco, assim como um gotejar distante eram suas únicas sensações. Tirou sua arma de baixo do casaco e apertou-a contra o peito como a uma mãe aflita agarra seu rebento. Foi olhar para fora em busca de luz, enquanto virava ouviu um som feral que parecia rasgar ao meio aquele cenário obscuro, viu lá embaixo uma criatura quadrúpede ziguezagueando lentamente em sua direção, movendo-se com maestria entre os obstaculos que lhe trouxeram tanta dificuldade. Ela era do tamanho de um bezerro, mas esguia; sua pele era negra com rajadas marrons e com dobras que ondulavam juntos com as cores, hipinotizando-o. Por um segundo poderia parecer amiga, mas sua cabeça quadrada e seus olhos opacos transmitiam pura maldade. Fagner sintiu-se golpeado no coração como quando recebera a noticia da morte do pai, afogado num arroio; mas se não fizesse nada, agora seria ele a notícia ruim. Não lembrava se havia ou não carregado a arma, procurou uma munição no bolso, mas aquele maldito casaco tinha tantos. Por um breve momento a besta se abaixara, como que se rendendo ao humano, mas logo abandonou o chão saltando em sua direção, ignorando as duas ultimas pedras que separavam-los e lhe davam uma falsa impressão de segurança, durante o movimento suas apatas frontais abriam-se como que oferecendo lhe um abraço mortal; Fagner virou-se para fugir, mas mal suas pernas começaram um esboço de movimento já sentia o hálito quente do bicho em sua nuca, depois um ardor nas costas e um empurrão; caiu abraçado na arma, sobre o braço, provavelmente quebrando-o; o peso do animal era muito maior do que imaginara durante suas leituras gaguejantes. No chão, virou-se desesperado, a coronha da espingarda deu em cheio na fuça do animal que lhe rasgava com as duas patas frontais. O golpe acertou o nariz da fera, que sustentada apenas pelas patas traseiras perdeu o equilibriou, caindo sobre as pedras escarpadas. Fagner por sua vez, sentindo toda sua pele arder, ao não ver mais a Pantera desmaiou, nenhuma parte de seu corpo aguntava mais tais castigos.

Um tímido fio de luz solar o despertou, acordou assustado ainda procurando o inimigo, mas logo percebeu que estava seguro. Logo então vieram as dores lancinantes de suas feridas e a náusea do chão ensopado de sangue. Já enxergava alguma coisa daquela gruta, que na verdade era apenas um buraco em uma grande rocha, provavelmente causado por uma explosão. Foi para o canto mais fundo do lugar, unica parte onde não havia seu sangue e analisou suas feridas, diversos cortes no peito, braços e até rosto, alguns até bem fundos e que ainda sangravam; seu consolo era que de nenhuma ferida saia o sangue negro que seu avô lhe dissera ser o sangue da morte, na verdade seu sangue era bem mais vermelho que imaginava. Outro consolo era a bela enfermeira que atendia na cidade e que lhe costuraria, se lá conseguisse chegar. Cobriu as feridas aparentemente mais graves com os retalhos restantes de sua velha comisa e se arrastou em direção a saída, seu braço esquerdo doía muita, desceu cuidadosamente para não cair. Quando a dor dava uma breve trégua ao cérebro, olhava ao redor a procura da pantera que devia ter morrido na queda contra aquelas pedras as quais de dia pareciam ainda mais pontiagudas. Depois de muito sofrimento para descer, encontrou um fluído viscoso e escuro sobre as rochas, em seguida alguns tufos de pelos negros e por ultimo plumas da cor de uma romã e do tamanho do seu antebraço. Jamais havia visto penas daquele tamanho, sorriu, mal podia ver a hora de se recuperar dos ferimentos pesquisando em seu livro sobre esse pássaro fantastico que roubara sua caça.

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