O Cobertor

Era seis e pouca e já anoitecera, o minuano perfurava o Rio Grande como um punhal; o vento polar sempre vem furtivamente, enganando aqueles que sentem-se aliviados pelo fim das chuvas de outono. Aquela rua deveria estar vazia numa sexta feira tão inóspita, mas havia uma liquidação. Pelo vidro do carro Paulo via as pessoas saindo com caixas e sacolas enormes, se não estivesse tão cansado do dia estressante de trabalho teria curiosidade em saber o que compravam. Já havia perdido o interesse, mas o arranca e para daquele horário o fez passar mais tempo do que desejava na frente da loja. Uma senhora que parecia não ter nascido, mas sido escrita por Eça de Queirós, sai carregando um edredom em cada braço, eram felpudos e de um amarelo queimado que lembrava uma palha aconchegante. Se perguntou o preço, Paulo já tinha um cobertor dupla face, bem quente, mas naquela noite talvez não fosse o suficiente, além do mais não gostaria de ligar o ar condicionado devido aos recentes aumentos na conta de luz. “Deve ser tudo pela metade do dobro, e outra, se eu comprar pela internet sai mais barato” disse enquanto fazia a rotatória para entrar na principal, finalmente se afastando da loja; entretanto o engarrafamento na avenida era ainda maior. “Se eu comprar pela internet não usarei essa noite, provavelmente a mais fria do ano.” Deu toda a volta e retornou à rua onde estava. “E também deve ter máquina de café naquela loja.” Não tinha, além disso restavam apenas cobertores rosa, num tom desbotado que lembrava as roupas de sua falecida mãe, e por oitenta reais, comprou mesmo assim. A fila do caixa era longa, durante a espera reparou que a loja era mais fria que seu carro e a temperatura parecia diminuir a cada novo minuto de espera; sentiu vontade de abrir a embalagem da coberta ali mesmo e se enrolar nela. Por fim chegou sua vez, a caixa era simpática, entretanto Paulo não prestou muita atenção nela, digitou a senha do cartão o mais rápido que pode com seus dedos congelados, dispensou a nota e correu de volta para o estacionamento; os seguranças já estavam à porta, a partir daquele momento não entrava mais ninguém, ele se sentiu um pouco sortudo. Chegando ao carro desembrulhou o cobertor com as mãos sem tato, a outra face da coberta possuía listras em tons melancólicos de azul, enrolou-se nela mesmo assim; perguntou a si mesmo se dirigir daquela forma poderia gerar multa, mas quem estaria multando naquela tundra urbana?

Como por mágica o engarrafamento na avenida havia terminado, dirigiu o mais rápido que pode em direção a sua casa, que era numa provincial cidade vizinha. Já na Freeway, reparou que o tanque de gasolina estava na reserva, obrigou-se a parar no posto mais próximo. Ao avistar o primeiro frentista atirou o cobertor para os bancos de trás, se o vissem daquele jeito ele seria o assunto desses estranhos zombeteiros por uma semana. Enquanto fazia o retorno notou um mendigo dormindo em posição fetal sobre um banco de pedra, forrado com pedaços de papelão, sua única proteção contra frio e aquele vento cortante era uma blusa de lã e uma calça jeans surrada (na verdade Paulo não sabia se a calça já não viera de fábrica assim), além dos vários pares de meia, que usava provavelmente para compensar a falta de calçado. Reduziu bastante a velocidade para vê-lo melhor, o homem não tremia, estava ferrado no sono, notou também uma garrafa de Corote dentro de uma sacola plástica, estrategicamente amarrada ao pé do banco, e que o vento a fazia tremular como uma bandeira. Um dos frentistas então bate em seu vidro, despertando Paulo do transe:
– Que vai ser, meu consagrado? Perguntou com seu tom de voz naturalmente alto.
Embaraçado, entregou as chaves:
– Põe uns cinquenta de gasolina, olha o óleo e os pneus, faz favor – Disse fingindo-se decidido.
O frentista tinha quase dois metros, corcunda, cabelo cogumelo e um cavanhaque mal feito, usava um macacão da Petrobrás muito sujo. Paulo já o conhecia pois costumava abastecer ali, mas não sabia seu nome; do outro, que acabava de sair do banheiro, ele sabia, Moisés, um gordinho baixinho que praticava caratê no mesmo prédio que Paulo morava e que e ria das piadinhas que seu colega lhe largava ao pé do ouvido por pura submissão.
– Aquele mendigo, ele costuma vir por aqui? Decidiu perguntar.
– De noite ele tá sempre aí, o senhor nunca viu? Respondeu Moisés, enquanto seu colega se balançava como um joão-bobo, tentando se esquentar da forma mais ridícula possível. Paulo tentou lembrar-se, mas realmente nunca havia reparado.
– Agora que tu falou, mas achei que não fosse o mesmo; deve ser por causa das roupas. Falando nisso, ele não tá tapado com nada, será que não passa frio?

– Passa frio nada, a coberta dele é a cachaça. Disse o magrão e os dois caíram numa gargalhada desarticulada.

Paulo deu de ombros e foi à loja de conveniência beber o café que já queria há tempo. Pediu também um, pensou em levar um risole para o miserável, mas não o acordaria, e se os deixasse por ali cachorros ou até mesmo formigas o atacariam. Queria fazer algo por aquele pobre homem, sabia que dar-lhe o cobertor seria o certo, mas havia recém comprado, e aquela noite seria fria. Bebeu meia taça de café num sorvo, fingiu que não se queimou pois a garçonete era jovem e bela.

– Aquele mendigo ali no banco, ele come aqui? Disse unindo o útil ao agradável.

A moça parou um instante, olhando para o nada, como que tentando lembrar de quem ele falava, também sem saber se era com ela que ele falava, mas logo notou que só tinha os dois ali.

– É, não – e então percebeu que lhe parecia a resposta errada – Os caminhoneiros que passam por aqui sempre alimentam ele quando cozinham algo, não te preocupa.

– Eu tenho um cobertor lá no meu carro, ele deve estar com frio, né?

– Pode ser – e complementou com um “aham” seguido de um aceno de cabeça exagerado, então fingiu responder uma mensagem em seu celular.

“Se não é anônimo não é caridade, é vaidade” pensou depois que percebeu que não impressionara a menina. Pagou o café com uma moeda de uma real que já havia se assentado há dias no canto da carteira e deu um tchau seco à garçonete, sem receber resposta. Voltou ao carro, pegou as chaves sem conversar com o frentista, que por cortesia desejou um bom fim de semana ao “chefia”.
Enquanto saia quis dar uma última olhada no sem teto, parecia mais encolhido que da última vez. Parou o carro, com uma velocidade que nem ele sabia que tinha apanhou o cobertor desceu e cobriu o pobre homem, a coberta lutou contra o vento por um breve momento, mas então assentou-se perfeitamente sobre o mendigo que não foi necessário nenhum ajuste, tapando até o pés com em sua totalidade. Paulo voltou ao carro com a pressa de um criminoso, e dirigiu até sua casa com a mesma velocidade.

Na manhã de segunda feira um sol tímido dava as caras, Paulo saiu cedo, decidiu tomar café no posto. Chegando lá viu só o banco, não estava nem o mendigo, nem o cobertor, muito menos a cachaça. Avistou logo os dois frentistas rindo de sua cara, encostou o carro ao lado da bomba e o magrão tascou com a voz alta, sem nem dar bom dia:
– Bah, meu bruxo, nem te conto: Sábado de manhã o mendigo tava puto da cara porque acordou num suador, queria saber quem era o filho da mãe que tinha botado aquele cobertor por cima dele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s