Doente

Era quase meia noite e’u, mesmo cansado, tentava formatar meu TCC, quando ouvi alguém bater na porta em ritmo descompassado, era Dona Olga, que usava um enorme xale de crochê marrom sobre sua pele manchada e alegava estar passando muito mal, dizia sentir falta de ar e palpitações, e também que eu deveria levá-la ao hospital. Sendo famosa na vizinhança por sua hipocondria crônica, falei que meu carro havia estragado, assim não sendo possível. A inofensiva velinha teve então uma mudança de humor tão súbita quanto o mal que alegava: acusou-me de mentiroso, afirmou ter me pego no colo enquanto bebê, cobrava respeito retroativo e invocava com suas cordas vocais já rotas a figura de minha falecida mãe. Desconversei com toda calma e frieza, por fim ela desistiu e saiu cambaleando a emitir um misto de lamento e espraguejo; o abrir do portão soltou um ruído fiasquento, como se tomasse partido da pseudo moribunda.
Quando por fim fechei a porta, consegui sair daquela personagem que fazia cara de jogador de pôquer e colocar meus pensamentos em ordem: em primeiro lugar tal situação me parecia tão desnecessária quanto desagradável, aliás, falando em pensamentos, perdi toda a raríssima concentração que tivera para polir meu trabalho de conclusão. Por outro lado, e se ela estivesse realmente doente? Mesmo os hipocondríacos um dia adoecem. Quais seriam as chances? Retornei ao meu quarto e encontrei uma fatia de pizza fria e agora indigesta, da qual já nem mais lembrava, não me parecia ter passado tanto tempo à porta negando auxilio aos necessitados. Naquela noite não conseguiu mais prestar atenção em nada, senão na movimentação da casa da fatídica vizinha, espiava em busca de uma ambulância ou de qualquer rebuliço naquela vivenda oculta pelas folhagens; nada, apenas alguém chegara, mas como os diversos vira-latas que ela possuía não latiram, concluí ser alguém de casa. Rezei pela alma da pobre velha e logo caí no sono.
Na manhã seguinte fui ao supermercado pegar pão, apressado pois ele estava prestes a fechar, já não lembrava mais do incidente. Entreranto me deparei com Carla, neta de Dona Olga, uma bela jovem com uma sensualidade ingênua, cumprimentei-a duplamente receoso, e a moça respondeu-me com “Qual é que é?”. Eu sei, ela pode ter dito tantas coisas com tais palavras, mas “Seu negligente, por culpa sua minha vó morreu” não é uma delas. Ainda por desencargo de consciência, no caminho procurei pelos postes e murais por anúncios funerários, mas graças à Deus não os encontrei. Porém ao chegar ao mercado avistei o xale, e junto dele Dona Olga, na fila do caixa e de costas para mim, saudável, garimpando moedas em sua enorme carteira. Suspirei, dei meia volta e decidi ir almoçar na casa de minha vó.

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